A revelação de uma operação de inteligência brasileira envolvendo autoridades paraguaias desencadeou uma crise diplomática entre os dois países e ameaça o andamento das negociações sobre o Anexo C do Tratado de Itaipu. O governo do Paraguai convocou nesta terça-feira (1º) seus embaixadores para consultas e exigiu esclarecimentos após denúncias de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) monitorou membros do governo paraguaio entre junho de 2022 e março de 2023.
A ação teria como alvo interlocutores envolvidos diretamente nas tratativas sobre os valores da energia excedente de Itaipu, questão central para a revisão do Anexo C — que trata das bases financeiras e comerciais da hidrelétrica binacional. A operação veio à tona por meio de reportagens publicadas pelo portal UOL e, segundo o Itamaraty, foi conduzida durante o governo de Jair Bolsonaro, tendo sido encerrada em março de 2023, antes da posse definitiva do atual diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa.
O impacto imediato da crise foi o congelamento das negociações bilaterais em torno do Anexo C, um tema sensível para os dois países. O Paraguai, que vende ao Brasil a energia que não consome, defende a revisão dos preços e das condições de comercialização. O Ministério de Tecnologias da Informação e Comunicações (MITIC) do Paraguai iniciou uma investigação interna para apurar a extensão da espionagem e seus possíveis efeitos sobre decisões estratégicas nacionais.
Em nota oficial, o Itamaraty reiterou que a atual administração não autorizou qualquer ação de inteligência contra o país vizinho e reforçou seu compromisso com a transparência e o diálogo diplomático. Apesar disso, o gesto de insatisfação formal do Paraguai — com a convocação do embaixador brasileiro para prestar esclarecimentos — evidencia o desgaste na relação bilateral em um momento crucial para o futuro da maior hidrelétrica em operação no mundo.